Cenas de Uma Empregada de Mesa - ep. 3, parte 1: Boa educação não paga imposto

Ao fim de três anos a servir à mesa, passei a ter na ponta da língua três palavras: boa tarde, obrigada. Não dói, é de graça e fica bem.

Não compreendo pessoas que entram num qualquer estabelecimento e ignoram por completo quem está a trabalhar. É suposto sermos criados dos outros? Até os criados têm direito a que sejam educados para eles, por amor de Deus. Há dias em que me divirto com os, chamemos-lhes menos educados, e há outros em que me passo dos carretos.

Há sempre aqueles que entram porta adentro e vão sala fora à procura de não sei bem o quê. Se estiver a trás do balcão e não houver qualquer colega perto da pessoa, é muito engraçado. Grito «Boa tarde!» e a pessoa pára para ficar a olhar para os lados à procura de quem falou. Há dias em que é girou, noutros, já se torna chato.

Há quem responda, mesmo que não saibam quem falou com eles. Temos também aqueles que quando nos vêem e não dizem nada, depois de ouvirem, respondem. E há os outros que, não sei por onde andam, se neste planeta se noutro, mas que é preciso repetir três e quatro vezes «boa tarde!» para que nos oiçam. Neste grupo, há os que respondem «desculpe, boa tarde, estava distraído» e há aqueles (inspira... expira) que parecem ficar muito ofendidos ou porque lhes interrompemos o pensamento ou porque às tantas (e agora falo por mim), já lhes estou quase a gritar à espera de uma resposta.

A certa altura houve alguém que tentou ter piada ao chamar-me "Sineta do boa tarde", por dar sinal sempre que alguém entra. Mas não, não teve piada. E o senhor também não dizia nada quando trespassava a porta... Pois. 

Já é tão automático que se for a algum lado à noite ou de manhã, às vezes lá me sai o bom do boa tarde. Mas são ossos do oficio, certo?

(continua)

xoxo, Mia 

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